Quando penso sobre os movimentos masculinistas eu vejo eles dentro de um processo maior onde se estrutura uma visão de mundo que não existe somente no cerne o ser homem e a então suposta crise de masculinidade mas sim uma batalha dentro de uma guerra política.
Esta que outrora parte somente da anglosfera, hoje se comportando tal qual uma bactéria ao devorar a outra, engloba e encompassa os ambientes digitais menores tornando alguns ainda existentes mas não podendo sair do que é delimitado por ela. Tudo hoje é a anglosfera.
Ela então se torna, de cada ambiente social digital que devora, de forma consentida ou não, A Nossa Maravilhosa Macroesfera informacional.
Partindo desse pressuposto de uma campanha de mais de dez anos, hoje sabendo que em uma de suas frentes partindo d'O Notório Pedófilo em ambos os principais fóruns da internet inglesa, outra do agora imenso conglomerado de mídia de Zuckenberg, que inclui as plataformas Instagram e Facebook, mais utilizadas nas terras Brasileiras; o sistema de dominação ideológica não se faz somente pela implícita propaganda mas sim por tornar pontos da ideologia parte comum do nosso dia-a-dia.
No Facebook se viu a onda crescente do então inofensivo liberalismo se espalhar impulsionado pela majoritária classe média emergente insatisfeita com a situação que se construía pela mídia hegemônica do país; essa ideologia tinha como principais pontos a serem espalhados de forma separada do combo todo a idéia do empreendedorismo e demais sabores do individualismo.
O empreendedorismo ganhou força, na esfera brasileira sendo essa uma das primeiras enzimas a quebrar a nossa barreira individual osmótica, e saiu do Facebook para o que hoje vemos como uma epidemia de cursos, influencers que vendem um aparente sucesso possível e riqueza alcançável em somente uma fração da sua vida.
Nos distraindo da deterioração dos salários comparada ao aumento de preços, precarização das condições de trabalho, precarização e corrupção das instituições de defesa do trabalhador bem como erosão das leis pelo relaxamento da aplicação delas.
Por outro lado o individualismo tomou outras linhas e principalmente se vendeu para os homens que se veêm desde os anos 80 bombardeados com a idéia de que eles são trabalhadores e únicos no que fazem, que o macho de verdade existe só e somente por ele; algo que em suma os estirpa de qualquer conexão com uma comunidade que antes se fazia essencial para estruturação do ser humano e até mesmo do macho como performace de gênero em si.
Com a tela portátil isso se amplificou pois em jornadas de trabalho exaustivas que por consequência mataram os lugares de convívio social deles a tela e a internet se tornou o meio por onde podiam se comunicar livremente, criando até os momentos onde "se é valentão somente atrás da tela do celular".
E essa valentia existe por projeto, em conjunto a poder expressar os sentimentos irracionais livre e anonimamente podendo estes serem amplificados por outros usuários retroalimentando o viés criado ou adiquirido uns dos outros.
Tornando a suposição de algo que só melhor posso descrever parafraseando o poeta baiano Carlos Machado em seu poema Pássaro de Chumbo; lá [nos fóruns digitais] até inventam deuses perfeitos, construídos à imagem e semelhança do que sonham e por conseguinte do projeto inauguram na estátua de chumbo: um simulacro imperfeito da sua imaginação.
Todo esse processo eu vi ocorrer, do sonho até o desenvolvimento concreto desse sistema de crença circular que consegue trazer novos membros mais e mais para dentro da espiral do machismo, individualismo e atenuação das dores de homens que mesmo que nessa comunidade não veêm acolhimento pra elas de forma que as feridas se curem, somente são ensinados que elas devem doer; e na dor, quando intensa, devem passar para os outros.
Para passar adiante aos outros que não tem nada haver, de forma muito americana, buscam tiroteios e atentados, buscam causar comoção nas redes sociais que nos bombardeiam de notícias ou falas absurdas contra nossa vontade.
Buscam atenção pela dor que passam não pedindo ajuda, mas se levantando com seus póstulos e lepra para espalharem a todos sua dor de forma a inocularem no máximo de pessoas possíveis a doença que é o projeto neoliberal.
Entendo a aversão a palavra para aquele que é mais leigo mas para quem lhe escreve não cabe o neo-feudalismo ou demais ismos porque essas mutações ainda existem na raíz da questão: o neoliberalismo que surgiu nos anos 70, divergente de toda forma que existimos em sociedade desde os primórdios nos estirpando da comunalidade que sempre desfrutamos.
E é por meio de nos estirpar da comunalidade que a anglosfera avança e encapsula os ambientes nacionais-linguísticos menores. Estirpam-nos do que nós comunalmente vivemos para então nos capturar para os problemas idéias e questões exclusivas que ou suas elites veêm como importante bem como o projeto político regente veja como necessário discurtirmos.
Por exemplo, enquanto no Brasil há um constante genocídio de pessoas pretas a todo momento, com operações disfarçando chacinas e violências diárias sendo inflingidas a essa população: somente se levantaram protestos a nivel nacional quando um preto americano morreu por violência policial. Não por malícia mas porque fomos mesmo que militantes, encapsulados pelos projetos da anglosfera.
Para todos os fins e meios, senhor Cláudio Castro essa semana pode com sangue nas mãos e coleção de crânios, somente renunciar ao cargo.
Um caso da direita? Olhe o atual experimento inconstitucional da "ICE de Floripa" que busca nos limites da constituição remover pessoas de rua da cidade e expulsar aqueles que são indesejados pelo governo local.
Mas o governo não age por si, age este por um controle midíatico que o cerca no dia a dia para que então essas opções de "ser de direita" sejam optadas, mas não livremente escolhidas.
Se então vemos nos governos, algo do macro regional da vida em comum, isso não é diferente na vida individual onde como já dito: os homens são cercados de notícias mentirosas que criam fatos críveis que busca pô-los contrários às mulheres, intensificam neles os idéias do que é ser macho para que eles se vendo sobre ataque possam então se sentir estressados de forma retroalimentada pelo já existente estresse em performar o gênero mas também que todo esse estresse é supostamente combatido e veementemente oposto por todos.
É um frei do Opus Dei que se chicoteia e após a sessão de autoflagelação reclama que todos os pecadores são violentos.
Esse processo de retroalimentação da dor e estresse em conjunto com a transmutação destas em ódio faz com que o indivíduo estirpado de uma comunidade de carne e osso venha por um viés cognitivo comportamental intensificar mais e mais esses sentimentos, a ponto que hoje então chegamos a onde estamos:
-Neonazismo e/ou Racismo sendo defendido como liberdade de expressão, pois a supremacia branca é uma das ilegítimas válvulas de escape que o projeto direciona um recorte da população masculina;
-Misandro-machismo (anglicisado como RedPill) que encompassa grande parte dessa população sendo a barreira osmótica que captura o individuo para dentro desse meio por meio de postagens ou notícias falsas que venham aos poucos pinicar os estresses do dia-a-dia;
-Transmisoginia que age nessa barreira osmótica para atrair não somente homens mas também mulheres criando um ressentimento de gênero para seus pares e no caso dos homens, odiar esses [por eles vistos como] ex-homens que encontraram uma saída alternativa para viver como pessoas felizes fora da prisão que o machismo/ideal de macho que os enclausura sem necessitar de toda a propagada luta dentro do projeto "redpill";
-Xenofobia Regionalista um projeto em partes nacional advindo das elites ruralistas e urbanas que buscam diminuir a autoestima daqueles que são sua mão de obra barata para que então mantenham-se submissos fazendo então que corram para os outros movimentos acima, sendo esse um exemplo de uma bactéria não digerida pelas enzimas da anglosfera mas sim que vive em simbióse dentro dela;
Tendo esses quatro eixos mas não se limitando a eles, peço ao leitos que pegue uma de suas dores ou estresses diários e busce exacerbá-los por um desses pontos. Seja cruel, seja excepcionalista consigo mesmo, descreva de si e os pares preferíveis qualidades, descreva daqueles que participam da sua dor adjetivos derrogatórios e em seguida forje esses adjetivos ou advérbios como imutáveis.
Este é o projeto. Se esse que é um deles é dificil de sair, ainda nesse exercício pense em uma estrutura muito maior que um sistema lógico de pensamento que vai bombardear você com notícias e fatos para que ao faltar informações do exercício você possa emprestar bloquinhos para fechar o cíclo.
A anglosfera existe hoje como esse macro sistema complexo que retira de nós a capacidade de pensar por si, terceirizando-a tanto do individual como do comunitário para veículos e plataformas que se escusam atrás de mágicos algoritmos programados para espalhar personalizadamente essa propaganda.
Não há como fugir dela, somente se tornar consciente; por hora.